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Blog Crítica Prática

FRIEDRICH ENGELS – Notas de leituras da obra A situação da classe trabalhadora na Inglaterra



Notas conjunturais:


Engels nasce em Barmen, na família de um industrial têxtil de convicções políticas e religiosas conservadoras. “Vivendo num dos grandes centros industriais da Província Renana, Engels teve diante de si desde a infância o quadro da miséria desesperada dos trabalhadores”, a que não ficou indiferente. Na Alemanha efervescente, engaja-se e participar das lutas liberais contra o estado monárquico de Guilherme III e IV, e alinha-se à juventude de esquerda jovem hegeliana. Seus estudos e o projeto de formação universitária foram interrompidos pelo pai que “[...] decidira que o filho mais velho devia tornar-se comerciante”. Em 1837, foi obrigado a abandonar o liceu, “e começar a aprendizagem do comércio no negócio do pai” na cidade de Barmen. Em 1838, passa a trabalhar na firma de exportação por grosso de Heinrich Leupold em Bremen (CC do PCUS, 1986, p. 12-16). O interesse e engajamentos de Engels nas lutas políticas da Alemanha, levam o pai a articular o afastamento do filho “o mais longe possível da Alemanha” e “da luta de ideias” que evidenciava uma correlação de forças em ebulição (CC do PCUS, 1986, p. 37). Em meados de novembro de 1842, Engels parte para o Manchester – Inglaterra “com vistas a adquirir prática comercial na fábrica de fiação da firma Ermen & Engels, de que seu pai era co-proprietário”, onde passa dois anos (CC do PCUS, 1986, p. 37).


Manchester era o maior centro do Sul do Lancashire, berço da indústria têxtil inglesa. Era uma cidade com uma população de 400 000 pessoas, com contradições sociais que se exprimiam de modo agudo. Uma parte considerável da cidade velha, com as suas ruazinhas tortuosas e estreitas, era ocupada por bairros operários; não muito longe deles, em ruas amplas e direitas, vivia a media burguesia, enquanto a grande burguesia, vivia predominantemente em luxuosas casas e palacetes nos arredores da cidade.

Depois de terminar as horas de serviço no escritório da Rua Southgate, Engels, à noite e aos domingos, dirigia-se aos bairros operários, visitava as miseráveis habitações dos proletários, conversava com os operários, interrogando-os sobre as suas condições de vida e de trabalho (CC do PCUS, 1986, p. 40).


Segundo a biografia com que estamos trabalhando, a estada de Engels em Manchester, Inglaterra


[...] foi para ele uma escola notável e desempenhou um enorme papel na continuação da formação das suas concepções sociais, políticas e filosóficas e na sua passagem definitiva para uma posição materialista e para a posição do comunismo proletário (CC do PCUS, 1986, p. 37).


Neste período entra em contato com o movimento operário organizado, na forma do cartismo, no momento do seu ascenso, que ocorre por ocasião da crise econômica de 1841-1842, e do agravamento da situação dos trabalhadores (Ver THOMPSOM, E. P. A formação da classe operária inglesa). Os conflitos de classe em Manchester eram agudos e se expressavam na forma de greves de caráter político, quando os trabalhadores, em luta pela “Carta do Povo” (CC do PCUS, 1986, p. 39), reivindicavam: (i) sufrágio universal masculino; (ii) um voto para cada homem com 21 anos de idade ou mais, em sã consciência e que não tenha sido punido por um crime; (iii) voto secreto; (iv) cancelamento da (exigência) de propriedade para a garantia do direito de voto; (v) pagamento aos membros do Parlamento, permitindo aos trabalhadores interromper o seu sustento para satisfazer as necessidades da nação; (vi) distritos eleitorais iguais, garantindo a mesma quantidade de representação para o mesmo número de eleitores; (vii) Eleição anual. Engels percebe que os operários começam a sentir sua força, mas padecem de “falta de preparação e de organização, uma direção única e um objetivo definido”. Critica nos cartistas a proposta (reformista) de uma revolução pela via legal.

Entre 1842-1844 Engels estuda cuidadosamente o desenvolvimento das forças produtivas e das relações de produção na Inglaterra. Dedica-se particularmente a conhecer a vida do proletariado. Suas conclusões são organizadas em cartas encaminhadas para a Reinisch Zeitung (1842), e quando suas atividades cessam por imposição da censura de Guilherme IV em janeiro de 1843, Engels passa a publicar no Schweizerischer Republikaner, The new moral World e Deutsch-Franzöishe Jahrbucher e Vorwarts (CC do PCUS, 1986, p. 39-40 e Escritos de Juventud, 1981, p. 119-248).


Fonte: Friedrich Engels: Escritos de Juventude Obras Escolhidas, Fondo de Cultura Económica, 1981


Utilizando-se de toda a bibliografia disponível (Peter Gaskell, John Wade, George Porter, Edward Baines, Andrew Ure, os Alison’s, Thomar Carlyle), de conversa com os operários, com os líderes cartistas, o estudo dos relatórios de fábrica (livros azuis), e dos periódicos cartistas (Northern Star), e as visitas à região de moradia dos operários, possibilitaram a Engels reunir um vasto acervo que serve de fonte para a escrita de A situação da classe trabalhadora na Inglaterra. Em 1843 passa a ser considerado um membro do Partido Cartista (Associação Cartista Nacional) escrevendo em seus periódicos; aproxima-se dos socialistas e em maio de 1843, e contacta dirigentes da organização secreta, a Liga dos Justos (CC do PCUS, 1986, p. 41-45).

Se o projeto do Sr. Friedrich Engels (pai) era manter o filho longe das agitações políticas na Alemanha, possibilitou, pelo contrário, as exatas condições para que o filho se aprofundasse mais ainda em tais agitações! A trajetória de Engels neste período consolidará as condições para a contribuição que prestará à humanidade por toda a vida.


A concepção teórica que a situação da classe trabalhadora na Inglaterra inaugura


A situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra (ENGELS, 1845), inaugura a análise materialista e dialética do modo como os seres humanos estão produzindo e reproduzindo sua existência, assentado no cuidadoso acompanhamento (i) do desenvolvimento das forças produtivas; (ii) das relações de produção; (iii) em relação com o estágio de desenvolvimento das ideias.

Sem a pretensão de aprofundamento (já realizado por ocasião do estudo de A ideologia alemã divulgado em diversos artigos, quero apenas deixar destacadas 03 passagens escritas em momento diferentes, que evidenciam a forma como Engels não perde de vista aquilo que é o cerne do modo de ver materialista e dialético!

Em relação aos alemães, que se consideram isentos de pressupostos [Voraussetzungslosen], devemos começar por constatar o primeiro pressuposto de toda a existência humana e também, portanto, de toda a história, a saber, o pressuposto de que os homens têm de estar em condições de viver para poder “fazer história”. Mas, para viver, precisa-se, antes de tudo, de comida, bebida, moradia, vestimenta e algumas coisas mais. O primeiro ato histórico é, pois, a produção dos meios para a satisfação dessas necessidades, a produção da própria vida material, e este é, sem dúvida, um ato histórico, uma condição fundamental de toda a história, que ainda hoje, assim como há milênios, tem de ser cumprida diariamente, a cada hora, simplesmente para manter os homens vivos. Mesmo que o mundo sensível, como em São Bruno, seja reduzido a um cajado, a um mínimo, ele pressupõe a atividade de produção desse cajado (MARX e ENGELS, A ideologia alemã (1846/1847), 2007, p. 32-33)



De acordo com a concepção materialista, o fator decisivo na história é, em última instância, a produção e a reprodução da vida imediata. Mas essa produção e essa reprodução são de dois tipos: de um lado, a produção de meios de existência, de produtos alimentícios, habitação, e instrumentos necessários para tudo isso; de outro lado, a produção do homem mesmo, a continuação da espécie (2). A ordem social em que vivem os homens de determinada época ou determinado país está condicionada por essas duas espécies de produção: pelo grau de desenvolvimento do trabalho, de um lado, e da família de outro. Quanto menos desenvolvido é o trabalho, mais restrita é a quantidade de seus produtos e, por consequência, a riqueza da sociedade; com tanto maior força se manifesta a influência dominante dos laços de parentesco sobre o regime social. Contudo, no marco dessa estrutura de sociedade baseada nos laços de parentesco, a produtividade do trabalho aumenta sem cessar, e, com ela, desenvolvem-se a propriedade privada e as trocas, as diferenças de riqueza, a possibilidade de empregar força de trabalho alheia, e com isso a base dos antagonismos de classe: os novos elementos sociais, que, no transcurso de gerações, procuram adaptar a velha estrutura da sociedade às novas condições, até que, por fim, a incompatibilidade entre estas e aquela leva a uma revolução completa. A sociedade antiga, baseada nas uniões gentílicas, vai pelos ares, em consequência do choque das classes sociais recém-formadas; dá lugar a uma nova sociedade organizada em Estado, cujas unidades inferiores já não são gentílicas e sim unidades territoriais - uma sociedade em que o regime familiar está completamente submetido às relações de propriedade e na qual têm livre curso as contradições de classe e a luta de classes, que constituem o conteúdo de toda a história escrita, até nossos dias (ENGELS, Origem da família, da propriedade privada e do Estado (1884), 1995, p. 2-3).


A visão materialista da história parte do princípio de que a produção, e logo a seguir à produção a troca dos seus produtos, são a base de toda a ordem social; de que, em cada sociedade que surge na história, a repartição dos produtos, e com ela a divisão das classes ou estados, é regulada pelo que se produz e como se produz, e como é produzido e trocado. Portanto, as causas últimas de todas as transformações sociais e revolucionamentos políticos são de procurar, não na cabeça dos homens, na sua progressiva inteligência da verdade e da justiça eternas, mas nas transformações do modo de produção e de troca; são de procura, não na filosofia, mas na economia da época em questão (ENGELS, O desenvolvimento do socialismo da utopia à ciência (1880), 2018, p. 78).


Para os que consideram esta posição apenas um deslize de um Engels positivista, tomemos a mesma tese exposta por Marx em dois momentos importantes de sua trajetória: (i) no Prefácio de 1859:


O primeiro trabalho, empreendido para resolver as dúvidas que me assaltavam, foi uma revisão crítica da filosofia do direito que Hegel, um trabalho cuja introdução apareceu nos Deutsch-Französische Jahrbücher publicados em Paris em 1844. A minha investigação desembocou no resultado de que relações jurídicas, tal como formas de Estado, não podem ser compreendidas a partir de si mesmas nem a partir do chamado desenvolvimento geral do espírito humano, mas enraízam-se, isso sim, nas relações materiais da vida, cuja totalidade Hegel, na esteira dos ingleses e franceses do século XVIII, resume sob o nome de "sociedade civil", e de que a anatomia da sociedade civil se teria de procurar, porém, na economia política. [...]. O resultado geral que se me ofereceu e, uma vez ganho, serviu de fio condutor aos meus estudos, pode ser formulado assim sucintamente: na produção social da sua vida os homens entram em determinadas relações, necessárias, independentes da sua vontade, relações de produção que correspondem a uma determinada etapa de desenvolvimento das suas forças produtivas materiais. A totalidade destas relações de produção forma a estrutura económica da sociedade, a base real sobre a qual se ergue uma superstrutura jurídica e política, e à qual correspondem determinadas formas da consciência social. O modo de produção da vida material é que condiciona o processo da vida social, política e espiritual. Não é a consciência dos homens que determina o seu ser, mas, inversamente, o seu ser social que determina a sua consciência. Numa certa etapa do seu desenvolvimento, as forças produtivas materiais da sociedade entram em contradição com as relações de produção existentes ou, o que é apenas uma expressão jurídica delas, com as relações de propriedade no seio das quais se tinham até aí movido. De formas de desenvolvimento das forças produtivas, estas relações transformam-se em grilhões das mesmas. Ocorre então uma época de revolução social. Com a transformação do fundamento económico revoluciona-se, mais devagar ou mais depressa, toda a imensa superstrutura. Na consideração de tais revolucionamentos tem de se distinguir sempre entre o revolucionamento material nas condições económicas da produção, o qual é constatável rigorosamente como nas ciências naturais, e as formas jurídicas, políticas, religiosas, artísticas ou filosóficas, em suma, ideológicas, em que os homens ganham consciência deste conflito e o resolvem. Do mesmo modo que não se julga o que um indivíduo é pelo que ele imagina de si próprio, tão-pouco se pode julgar uma tal época de revolucionamento a partir da sua consciência, mas se tem, isso sim, de explicar esta consciência a partir das contradições da vida material, do conflito existente entre forças produtivas e relações de produção sociais (MARX, Prefácio de Para a crítica da economia política de 1859 – Tradução de José Barata-Moura publicada no Marxist Internet Archives, disponível em: https://www.marxists.org/portugues/marx/1859/01/prefacio.htm ).


(ii) Em O Capital (1867), entre outras passagens, em nota anotada em rodapé n. 33, capítulo 1 (parte que trata do fetiche da mercadoria), de “O Capital”, Livro 1, Volume I (e para que não reste dúvida a São Tomé), publicado por Marx em vida (MARX, 1989, p. 88, p. 90-91):


É oportuna, aqui, uma breve resposta à objeção levantada por um periódico teuto-americano, quando apareceu meu livro “Contribuição à crítica da economia política, 1859. Segundo ele – minha ideia de ser cada determinado modo de produção e as correspondentes relações de produção, em suma, “a estrutura económica da sociedade, a base real sobre a qual se ergue uma superstrutura jurídica e política, e à qual correspondem determinadas formas da consciência social”; de “o modo de produção da vida material condicionar o processo de vida social, política e intelectual em geral”- tudoisso seria verdadeiro no mundo hodierno, onde dominam os interesses, mas não seria na Idade Média, sob o reinado do catolicosmo, nem em Roma ou Atenas, sob o reinado da política. [...] O que está claro é que nem a Idade Média podia viver do catolicismo, nem o mundo antigo, da política. Ao contrário, é a maneira como ganhavam a vida que explica por que, numa época, desempenhava o papel principal a política, e na outra, o catolicismo. (MARX, O Capital, Livro1, Volume I, 1989, p. 90-91)


Na mesma linha de raciocínio, a passagem do capítulo V que anotamos abaixo, assim como a 5ª nota da 2ª edição anotada na mesma página, diz:


Restos de antigos instrumentos de trabalho têm, para a avaliação de formações econômico-sociais extintas, a mesma importância que a estrutura dos ossos fósseis para o conhecimento de espécies animais desparecidas. O que distingue as diferentes épocas econômicas não o que se faz, mas como, com que meios de trabalho se faz. Ao meios de trabalho servem para medir o desenvolvimento da força humana de trabalho e além disso, indicam as condições sociais em que se realiza o trabalho [...] (O Capital, 1989, Capítulo V, p. 204)


Por escasso que seja o conhecimento revelado até agora pela historiografia a respeito do desenvolvimento da produção material que é o fundamento de toda a vida social e, em conseqüência, da verdadeira história [...] (O Capital, 1989, Capítulo V, p. 204, nota 5ª)


O exposto nos trechos destacados nesta seção contribui para evidenciar um modo de ver comum a Marx e Engels (que não excluem outros intelectuais de seu tempo), quanto a um certo fio de meada a seguir para o estudo das condições históricas determinadas que explicam o modo de vida dos trabalhadores e das classes proprietárias dos meios de vida. E não é menor enfatizar o pioneirismo de Engels, reconhecido por seus contemporâneos.

Nas traduções de que dispomos de Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra, Engels não está operando com as categorias forças produtivas e relações de produção, mas com certeza está pensando a partir delas. É ao exercício de reconhecer como Engels está explicando a vida dos trabalhadores que vamos nos dedicar em a Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra.


A situação da classe trabalhadora na Inglaterra – o livro


Entre setembro de 1844 e março de 1845, já em Barmen, Engels dá a forma final ao vasto material que coletou durante os dois anos de estada em Manchester, que compõe A Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra (ENGELS, 2008), cuja primeira edição foi publicada em Leipzig em 1845 (CC do PCUS, 1986, p. 41-45). O livro está estruturado em uma dedicatória, um prefácio, uma introdução e 11 capítulos: O proletariado industrial; As grandes cidades; A concorrência; A imigração irlandesa; Resultados; Os diferentes ramos da indústria: os operários fabris em sentido estrito; Os outros ramos da indústria; Os movimentos operários; O proletariado mineiro; O proletariado agrícola; A atitude da burguesia em face do proletariado (ENGELS, 2008).

Na dedicatória “às classes trabalhadoras inglesas”, Engels anota a diferença irreconciliável de interesses entre trabalhadores e classe média; “não possui outro objetivo que enriquecer à custa de vosso trabalho” (ENGELS, 2008, p. 38). Engels destaca a inutilidade das “comissões de investigação” que acumulam relatórios acerca da situação dos trabalhadores (livros azuis). Por fim, anota os interesses proletários como interesses internacionais!

No Prefácio, datado de 15.03.1845, Engels anuncia a situação da classe operária como “a base real e o ponto de partida de todos os movimentos sociais de nosso tempo”, por que é “a expressão máxima e a mais visível manifestação de nossa miséria social”. Por esta razão considera “o conhecimento das condições de vida do proletariado”, imprescindível, “para fundamentar com solidez as teorias socialistas”. O enfoque da situação da classe trabalhadora inglesa é delimitado por dois motivos: (i) a forma plena do desenvolvimento do proletariado é reconhecida existindo no Império Britânico (principalmente Inglaterra); (ii) apenas ali há material necessário ao estudo “reunido de modo quase suficiente e comprovado por investigações oficiais” (ENGELS, 2008, p. 41). Engels explica as fontes nas quais se apoiou e desafia os leitores ingleses a refutarem os dados que traz. Destaca a importância do texto para os socialistas e comunistas alemães que, tendo partido de premissas teóricas (dissolução da especulação hegeliana realizada por Feuerbach), carecem de conhecer “o mundo real, para que as condições sociais efetivas nos possam incitar diretamente a reforma desta “triste realidade””. A necessidade de conhecimento da situação dos trabalhadores na Inglaterra é imperiosa, pois, se aquelas condições de vida não chegaram ainda à Alemanha, é inevitável que cheguem. Os sinais de que este futuro se aproxima são apontados nas “sublevações ocorridas na Silésia, na Boemia [...] que ameaçam a tranquilidade da Alemanha” (ENGELS, 2008, p. 42). No material Engels distingue três classes: o proletariado (operários, classe operária, classes não proprietárias; proletários); a classe média/burguesia/classe proprietária; e a aristocracia (p. 43).

Na introdução Engels retrata o modo de vida e os costumes das famílias tecelãs antes da invenção da máquina a vapor (ganhavam o suficiente para o sustento da família, o trabalho estava dividido entre os membros da família, regulavam o tempo do seu trabalho, podiam chegar a cultivar algum pedaço de terra e situavam-se numa escala social acima do moderno operário inglês, com as crianças respirando o ar puro do campo e ocasionalmente contribuindo com o trabalho familiar). A avaliação desta “existência sem sobressaltos” assoma contraditória, indicando uma leitura mais crítica que elogiosa de um tempo em que predomina idílio concebido como conformado:


“[...] estavam intelectualmente mortos, viviam exclusivamente para seus interesses privados e mesquinhos, para o tear e para a gleba e ignoravam tudo acerca do grandioso movimento que mais além sacudia a humanidade. sentiam-se à vontade em sua quieta existência vegetativa e, sem a revolução industrial, jamais teriam abandonado essa existência, decerto cômoda e romântica, mas indigna de um ser humano. de fato, não eram verdadeiramente seres humanos: eram máquinas de trabalho a serviço dos poucos aristocratas que até então haviam dirigido a história; a revolução industrial apenas levou tudo isso às suas consequências extremas, completando a transformação dos trabalhadores em puras e simples máquinas e arrancando-lhes das mãos os últimos restos de atividade autônoma – mas, precisamente por isso, incitando-os a pensar e a exigir uma condição humana. [...]” (ENGELS, 2008, p. 45-47).


Engels recupera as máquinas que revolucionaram a tecelagem (Jenny, Mule, spinning throstle, máquina a vapor, força motriz mecânica, máquinas de cardar e fiar, tear mecânico, máquina a vapor numa progressiva vitória do trabalho mecânico sobre o trabalho manual); indica o que mudou nos processos de trabalho com estas invenções; como o desenvolvimento destas máquinas vai barateando o custo de produção, aumentando a produtividade e os salários; as transformações nos processos de trabalho advindas da inclusão das máquinas vai promovendo o desaparecimento dos tecelões-agricultores, e fazendo desaparecer as velhas relações de produção e o desaparecimento da visão do trabalho entre tecelagem e fiação (ENGELS, 2008, p. 48-50).

Não há na análise de Engels qualquer cultivo das tradições no que toca ao desenvolvimento das forças produtivas:

Havia, até então, um grande número de pequenos proprietários rurais, os chamados yeomen, cuja vida transcorria na mesma tranquilidade e apatia de seus vizinhos, os tecelões-agricultores. cultivavam seu pequeno pedaço de terra do mesmo modo descuidado e arcaico que seus pais e opunham-se a qualquer inovação com sua peculiar teimosia de seres que, escravos do hábito, nada alteram no decurso de gerações (ENGELS, 2008, p. 49).


Esta “progressiva vitória do trabalho mecânico sobre o trabalho manual” (ENGELS, 2008, p. 50), vai produzindo:


[...] o crescimento ainda mais rápido do proletariado, a destruição de toda a propriedade e de toda a segurança de trabalho para a classe operária, a degradação moral, as agitações políticas e todos os fatos que tanto repugnam aos ingleses proprietários e que iremos examinar nas páginas seguintes (ENGELS, 2008, p. 50).


O impacto do desenvolvimento das forças produtivas (invenções mecânicas) nos costumes é anunciado:

Se, mais acima, vimos as transformações provocadas nas relações sociais das classes inferiores por uma só máquina, mesmo tão rudimentar como a jenny, não há por que se espantar com o que pode proporcionar um sistema plenamente coordenado de máquinas extremamente aperfeiçoadas, que recebe de nós a matéria-prima e nos devolve tecidos acabados (ENGELS, 2008, p. 51).


Engels traz os dados na produção do algodão – no qual o sistema fabril passou a ser o único modo de produção vigente – crescente volume de importações e exportação de produtos beneficiados:


Sigamos mais de perto, no entanto, o desenvolvimento da indústria inglesa, começando por seu ramo principal, a indústria do algodão nos anos 1771-1775, importava-se em média, anualmente, menos de 5 milhões de libras de algodão bruto; em 1841, 528 milhões; e, em 1844, pelo menos 600 milhões. em 1834, a Inglaterra exportou 556 milhões de jardas de tecidos de algodão, 76,5 milhões de libras de fio de algodão e aproximadamente 1,2 milhão de libras de artigos de algodão. nesse mesmo ano, operavam na indústria do algodão mais de 8 milhões de fusos, 110 mil teares mecânicos e 250 mil manuais, sem contar os fusos dos teares de corrente e, segundo os cálculos de Mcculloch, viviam nos três reinos, direta ou indiretamente liga- dos a esse ramo, quase 1,5 milhão de pessoas, das quais 220 mil trabalhavam em fábricas; nestas, a força utilizada era de 33 mil cavalos-vapor e 11 mil cavalos de força hidráulica. hoje, essas cifras estão superadas e podemos admitir tranquilamente que, em 1845, o número de máquinas – assim como o de operários – e a potência gerada por elas ultrapassam em pelo menos a metade os valores de 1834 (ENGELS, 2008, p. 51).


A mesma operosidade verificou-se no tratamento da lã. Este já constituía então o setor principal da indústria inglesa, mas a produção daqueles anos é nada em comparação com o que se fabrica atualmente. em 1782, toda a produção de lã (tosquia) dos três anos precedentes continuava em estado bruto por falta de operários, e assim permaneceria se as novas invenções mecânicas não houvessem tornado possível a sua fiação. A adaptação das máquinas para a fiação da lã se efetivou com êxito. também nos distritos lanígeros verificou-se o mesmo rápido desenvolvimento que constatamos nos distritos algodoeiros. Em 1738, no West Riding de Yorkshire, produziram-se 75 mil peças de tecido de lã e em 1817, 490 milc – e o crescimento da indústria da lã foi tal que, em 1834, a produção de peças de lã ultrapassou em 450 mil peças o que se produziu em 1825. em 1801, processaram-se 101 milhões de libras de lã (das quais 7 milhões importadas); em 1835, 180 milhões (das quais 42 milhões importadas). (ENGELS, 2008, p. 52).


Evidencia a transformação no espaço geográfico (na cidade e nos campos), quando instaladas as indústrias (de algodão, lã, linho e seda) – destacando particularmente as transformações nos setores têxteis de Lancashire (Liverpool, Manchester, Rochdale, Oldham, Preston, Ashton e Stalybride); Notttingham e Derby; e, na Escócia, Glasgow (Lanarkshire e Renfrewshire); West Riding/Yorkshire/Bradford; Leeds/Halifax/Huddersfield; Rochdale; West Riding de Yorkshire (ENGELS, 2008, p. 51-54).


Fonte: Google Maps, Captura de Tela em 11.10.2023 07h35


Tomando como parâmetro o desenvolvimento das forças produtivas (exposição das invenções que reestruturam a produção) e das relações de produção (transformações nas relações entre as classes, no interior de ramos de produção/trabalho que levam a reordenamento dos espaços urbanos e rurais), que acompanha atentamente desde muito jovem (ver cartas de Wuppertal), Engels vai organizando os dados referentes às transformações geográficas, ambientais, populacionais impulsionadas pelo desenvolvimento de forças produtivas.

Mas não só! Engels vai à raiz! Se há máquinas, há necessidade de conhecer o processo de produção das máquinas, os materiais necessários (incluindo a base energética) a esta produção, e a divisão social do trabalho que vai se aprimorando no interior deste desenvolvimento de forças produtivas:


Foi sobretudo a produção de ferro que cresceu. Até então, as ricas minas de ferro inglesas eram pouco exploradas; o mineral do ferro era sempre fundido com carvão vegetal, que – em virtude da expansão da agricultura e da devastação dos bosques – tornava-se cada vez mais caro e escasso; somente no século passado começou-se a empregar para esse fim o carvão mineral (coke) e em 1780 descobriu-se um novo método para transformar ferro fundido com carvão mineral em ferro também utilizável para a forja (antes só empregado como ferro fundido). Com esse método, que consiste em extrair o carvão misturado com o ferro no processo da fusão e que os ingleses chamam de puddling, abriu-se todo um novo campo à produção inglesa de ferro. Foram construídos altos-fornos cinquenta vezes maiores que os precedentes, simplificou-se a fusão do mineral com a ajuda de foles de ar quente e assim foi possível produzir ferro a um preço tão baixo que uma grande quantidade de objetos, antes fabricados com madeira ou pedra, passou a ser feita com ferro.

[...]

Hoje, todas as minas vêm sendo exploradas mais intensivamente. Similar aumento de exploração registra-se nas minas de estanho, cobre e chumbo; ao lado da expansão da produção de vidro, surgiu um novo ramo industrial relativo à cerâmica, que adquiriu importância graças aos esforços de Josiah Wedgwood que, por volta de 1763, assentou sobre bases científicas toda a produção de vasilhames, introduziu um gosto mais refinado e criou as cerâmicas do staffordshire do norte, uma região de 8 milhas inglesas quadradas que, outrora uma área deserta, hoje está coalhada de fábricas e de habitações, onde vivem mais de 60 mil pessoas. (ENGELS, 2008, p. 55).


Engels prossegue na análise do desenvolvimento de estruturas como comunicações (ENGELS, 2008, p. 57), estradas (ENGELS, 2008, p. 57), pontes e ferrovias (ENGELS, 2008, p. 58), base energética (ENGELS, 2008, p. 58). A Revolução Industrial é explicada no impacto histórico para a humanidade:


Em resumo, essa é a história da indústria inglesa nos últimos sessenta anos – uma história que não tem equivalente nos anais da humanidade. Há sessenta ou oitenta anos, a Inglaterra era um país como todos os outros, com pequenas cidades, indústrias diminutas e elementares e uma população rural dispersa, mas relativamente importante; agora, é um país ímpar, com uma capital de 2,5 milhões de habitantesa, imensas cidades industriais, uma indústria que fornece produtos para o mundo todo e que fabrica quase tudo com a ajuda das máquinas mais complexas, com uma população densa, laboriosa e inteligente, cujas duas terças partes estão ocupadas na indústriab e constituem classes completamente diversas das anteriores. Agora, a Inglaterra é uma nação em tudo diferente, com outros costumes e com necessidades novas. A revolução industrial teve para a Inglaterra a mesma importância que a revolução política teve para a França e a filosófica para a Alemanhaa, e a distância que separa a Inglaterra de 1760 da Inglaterra de 1844 é pelo menos tão grande quanto aquela que separa a França do Antigo regime da França da revolução de Julhob. o fruto mais importante dessa revolução industrial, porém, é o proletariado inglês (ENGELS, 2008, p. 59).


O proletariado é explicado como produto do desenvolvimento das forças produtivas e como parte das forças produtivas.


Já observamos que o proletariado nasce com a introdução das máquinas. A veloz expansão da indústria determinou a demanda de mais braços; os salários aumentaram e, em consequência, batalhões de trabalhadores das regiões agrícolas emigraram para as cidades – a população cresceu rapidamente e quase todo o acréscimo ocorreu na classe dos proletários. Mesmo na Irlanda – onde apenas no princípio do século XVIII reinou certa ordem –, a população, mais que dizimada pela barbárie inglesa nas agitações do passado, aumentou rapidamente, em particular a partir do momento em que o desenvolvimento industrial começou a atrair para a Inglaterra uma multidão de irlandeses. surgiram assim as grandes cidades industriais e comerciais do império britânico, onde pelo menos três quartos da população fazem parte da classe operária e cuja pequena burguesia se constitui de comerciantes e de pouquíssimos artesãos. Adquirindo importância ao converter instrumentos em máquinas e oficinas em fábricas, a nova indústria transformou a classe média trabalhadora em proletariado e os grandes negociantes em industriais; assim como a pequena classe média foi elimina- da e a população foi reduzida à contraposição entre operários e capitalistas, o mesmo ocorreu fora do setor industrial em sentido estrito, no artesanato e no comércio: aos antigos mestres e companheiros sucederam os grandes capitalistas e operários, os quais não têm perspectivas de se elevarem acima de sua classe; o artesanato industrializou-se, a divisão do trabalho foi introduzida rigidamente e os pequenos artesãos que não podiam concorrer com os grandes estabelecimentos industriais foram lançados às fileiras da classe dos proletários. Ao mesmo tempo, com a supressão do antigo artesanato e com o aniquilamento da pequena burguesia, desapareceu para o operário qualquer possibilidade de tornar-se burguês. Até então, sempre lhe restava a chance de instalar-se em algum lugar como mestre artesão e talvez contratar companheiros; agora, com os mestres suplantados pelos industriais, com a necessidade de grandes capitais para tocar qualquer iniciativa autônoma, o proletariado tornou-se uma classe real e estável da população, enquanto antes não era muitas vezes mais que um estágio de transição para a burguesia. Agora, quem quer que nasça operário não tem outra alternativa senão a de viver como proletário ao longo de sua existência. Agora, portanto, pela primeira vez, o proletariado encontra-se em condições de empreender movimentos autônomos. Foi assim que se constituiu essa enorme massa de operários que povoa atualmente todo o império britânico e cuja situação social se impõe cada dia mais à atenção do mundo civilizado.

Foi assim que se constituiu essa enorme massa de operários que povoa atualmente todo o império britânico e cuja situação social se impõe cada dia mais à atenção do mundo civilizado.

A situação da classe trabalhadora, isto é, a situação da imensa maioria do povo inglês, coloca o problema: o que farão esses milhões de despossuídos que consomem hoje o que ganharam ontem, cujas invenções e trabalho fizeram a grandeza da Inglaterra, que a cada dia se tornaram mais conscientes de sua força e exigem cada vez mais energicamente a participação nas vantagens que proporcionam às instituições sociais? esse problema se converteu, desde o Reform Billa, na questão nacional: todos os debates par- lamentares de algum relevo podem ser reduzidos a ele e embora a classe média inglesa ainda não o queira confessar, embora procure evitá-lo e fazer passar seus próprios interesses particulares como os verdadeiros problemas da nação, esses expedientes de nada lhe servem. A cada sessão parlamentar, a classe operária ganha terreno, os interesses da classe média perdem importância e, embora esta última seja a principal – senão a única – força no parlamento, a derradeira sessão de 1844 não foi mais que um longo de- bate sobre as condições de vida dos operários (lei sobre os pobres, lei sobre as fábricas, lei sobre as relações entre senhores e empregados)a. thomas duncombe, representante da classe operária na câmara dos comuns, foi a grande personalidade dessa sessão, ao passo que a classe média liberal (com sua moção sobre a supressão das leis sobre os cereais) e a classe mé- dia radical (com sua proposta de recusar os impostos) desempenharam um papel miserável. Até mesmo as discussões sobre a Irlanda não passaram, no fundo, de debates sobre a situação do proletariado irlandês e sobre os meios de melhorá-la. Mas já é tempo de a classe média inglesa fazer concessões aos operários – que já não pedem, exigem e ameaçam –, porque em breve pode ser tarde demais.

Apesar disso, a classe média inglesa, em particular a classe industrial que se enriquece diretamente com a miséria dos operários, nada quer saber dessa miséria. (ENGELS, 2008, p. 59-61).


Neste primeiro momento de debate da obra, explorei mais a exposição dos dados que decorre de um eixo ocupado com a análise das condições reais em que produzimos nossas existências. Na próxima aula, é a atenção aos impactos dos desenvolvimentos de forças produtivas na vida dos trabalhadores, aquilo a que daremos maior atenção.


Referências:


CC do PCUS. Friedrich Engels: Biografia. Lisboa: Avante!; Progresso: Moscou, 1986.

ENGELS, F. A origem da família, da propriedade privada e do Estado. Lisboa: Avante!, 1985.

ENGELS, F. A situação da classe trabalhadora na Inglaterra. São Paulo: Boitempo, 2008.

ENGELS, F. Escritos de juventud. México: Fondo de Cultura Económica, 1981.

ENGELS, F. O desenvolvimento do socialismo da utopia à ciência. Lisboa: Avante!, 2018


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