M.T.E. – 10 ANOS LOS FRUTOS DEL TRABAJO POSSÍVEIS EM UM QUADRO DE AVANÇO DO CAPITAL SOBRE A EDUCAÇÃO DA CLASSE TRABALHADORA NA FORMAÇÃO SOCIAL BRASILEIRA– Conferência de Abertura –
- Elza Peixoto

- 18 de dez. de 2025
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Neste momento em que abrimos o X Encontro Marxismo e Políticas de Trabalho e Educação, o CNPq se prepara para um Censo atualizado sobre os Grupos de Pesquisas no Brasil. Para a compreensão do lugar no qual nos encontramos, vamos trabalhar com os Censos de 2023, ou seja, de dois anos atrás, e de 2014, ou seja, um ano antes da criação do grupo MTE FACED UFBA.
A Súmula Estatística referente ao último Censo de 2023 anunciava um total de 42.852 grupos em todo o Brasil. As regiões Sul e Sudeste possuíam juntas 24.638 grupos (mais da metade de todo o país), a região Sudeste 15.703 Grupos, enquanto toda a Região Nordeste possuía 11.769. Na Região Sudeste, apenas no Estado de São Paulo, 04 instituições (USP, UNESP. UNICAMP e UFSCAR) figuravam entre as 15 com a maior quantidade de grupos de pesquisas, somando juntas 3.670 grupos. No mesmo Censo de 2023, em todo o Nordeste, apenas duas Universidades (UFPE e UFBA) figuravam entre as 15 com a maior quantidade de Grupos, possuindo um total de 1.430 grupos. A UFBA figurava no Censo de 2023 como a 14ª instituição com mais grupos, possuindo até então 606 grupos de pesquisa e 4.949 pesquisadores envolvidos nestes grupos. Um pouco menos da metade da quantidade dos grupos que apenas a USP[1] (1.189 grupos) mantinha em 2023, e menos da metade da quantidade de pesquisadores (11.109) naquela instituição. Em 2023, do total de 42.852 grupos em todo o Brasil, apenas 10.184 eram da grande área das ciências humanas; e apenas 4.909 da área de educação.
Na súmula estatística do mesmo censo de 2023, o Grupo Marxismo e Políticas de Trabalho e Educação (o nosso MTE), encontra-se entre os 6.693 grupos fundados em todo o Brasil no período entre 2015 e 2017. Quando passamos a considerar os dados sobre grupos de pesquisa no Brasil um ano antes de nossa fundação, analisando-se a diferença entre as súmulas estatísticas de 2014 e 2023, explicita-se o ciclo no qual surgimos, quando consideramos que existiam em 2014 na Região Sudeste 15.549 grupos, enquanto em toda a região Nordeste, possuíamos apenas 7.215 grupos, menos da metade dos grupos existentes na região Sul. Entre 2014 e 2023 (em um intervalo de 9 anos), a Região Nordeste teve um inegável acréscimo de 4.554 grupos, enquanto a região Sudeste acresceu apenas 154 grupos em 9 anos, um dado curioso que carece de uma investigação mais acurada, fugindo daquilo que desejo explorar neste momento, mas, certamente, perpassando a estabilidade e o esforço de concentração dos recursos nas mãos de poucos grupos.

Quando consideramos a variação entre as áreas de ciências humanas e Educação, temos que no último Censo de 2023, possuíamos 10.184 grupos na área de ciências humanas e 4.909 grupos na área de educação, com um crescimento entre 2014 de 2776 grupos em Ciências humanas e 1690 grupos em educação.

É muito fácil nos perdermos nesta multidão de dados.
Na perspectiva com a qual trabalhamos, entretanto, é necessário explorar mais a fundo esta relação quantidade/qualidade, quando nosso foco é avaliar os frutos de um ciclo de 10 anos de trabalho, que se deu em um dos momentos mais turbulentos da história da formação social brasileira, no qual o acirramento da luta de classes se expressou (i) no golpe de 2016 que derrubou uma presidente eleita e levou ao poder um obscuro capacho do grande capital, (ii) com o avanço internacional da extrema direita, que, em consórcio com as BigTec (Google, Apple, Meta, Amazon e Microsoft ) levou ao poder o fascista Jair Bolsonaro, a ala dos militares herdeira do golpe de 1964, a indústria bélica, consorciada com o agronegócio, o capital especulativo financeirizado, o pentecostalismo de negócios, os oligopólios da saúde e da educação, e a indústria de fármacos e cosméticos; (iii) mas com muita luta dos trabalhadores em momentos de levantes de massas (como o “ele não”, ou o tsunami da educação) e momentos de conflitos generalizados de luta pela vida em ocupações urbanas, ocupações de terras, na resistência dos povos originários e quilombolas; ou na resistência às milícias nas comunidades que se equilibram nas periferias das grandes cidades do país. Um quadro que coloca o Brasil na sexta posição de países com conflitos internos que inspiram a atenção em todo o mundo.
Neste cenário de crise, é preciso perguntar pelas condições em que a Universidade Brasileira investiga esta realidade a partir de matrizes de análise que efetivamente a desnudem. Nós avançamos então para o levantamento de dados na busca textual pela palavra-chave “marxismo”. Neste aspecto, o Censo dos Grupos de Pesquisa de 2014 trazia 23 registros de grupos de pesquisas que tinha no título ou nas palavras chave a expressão marxismo, do quais, 10 grupos eram da área de educação, e demais 13 grupos, das áreas de Administração (01), Ciência Política (02), Direito (04), Psicologia (03) e Sociologia (01). A distribuição regional destes grupos é 10 no Sudeste (UFJF, UNICAMP, USP, UFF, UFRJ, UNESP, UFRRJ), 05 no Nordeste (UFPB, UESPI, UFAL, UFRN, UFERSA), 01 no Centro-Oeste (UnB), 3 no Norte (UNIFAP, UFT, UFPA), 02 no Sul (UFFS, UFFS), Centro-Oeste (01). Quando a palavra Marx é buscada neste mesmo processo, encontramos um registro de 61 grupos.

Na Busca Textual pela palavra-chave “marxismo”, o Censo dos Grupos de Pesquisa de 2023 trazia 22 registros de grupos de pesquisas, entre os quais, 05 grupos eram na área de educação, e demais 17 grupos, das áreas de Ciência Política (02), Direito (04), Educação Física (01), Psicologia (03) e Sociologia (01), Serviço Social (01), Teologia (01). A distribuição regional destes grupos é 8 no Sudeste (USP, UFF, UFRJ, UNESP), 07 no Nordeste (UFBA, UFPB, UFCG, UFAL, UFRN), 01 no Centro-Oeste (UnB), 5 no Norte (UNIR, UNIFAP, UEPA, UFPA), 01 no Sul (UFFS), 01 no Centro Oeste (UFMT). Quando a palavra Marx é buscada neste mesmo processo, encontramos um registro de 77 grupos.

Os dados evidenciam que, em que pese o crescimento significativo do número de grupos de pesquisa em todo o Brasil, e particularmente no Nordeste, no âmbito dos grupos que reivindicam explicitamente o marxismo, este crescimento praticamente não existiu, ocorrendo na verdade um movimento de mudança de qualidade nos números, na medida e em que, reduziram-se (de forma preocupante) os grupos na educação (que passaram de 9 para 5), na medida em que desapareceu 1 grupo na Administração, a história cresceu em 02 grupos, passando a ter 3, a educação física criou 1 grupo, o serviço social criou 1 grupo, a sociologia criou 1 grupo e a teologia criou 1 grupo. Mesmo o crescimento de 16 grupos que passam a referir-se ao nome de Marx, não nos pode tranquilizar.

É verdade que estamos reduzindo a busca aos termos marxismo e Marx, e que o recurso à busca de outros autores pode expandir a qualidade dos números. A título de exemplo, a procura pelo nome Gramsci no Censo de 2023 resulta em 4 grupos (2 na filosofia, 01 na geografia e 01 na Educação - Estado, Trabalho, Educação e Desenvolvimento: pensamento crítico latino-americano e tradutibilidade de Antonio Gramsci , líder Zuleide Simas da Silveira). A procura pelo nome Lukács no Censo de 2023, traz dois grupos em Alagoas (Lukács e Mészáros: fundamentos ontológicos da sociabilidade burguesa, sob a liderança de Maria Cristina Soares Paniago e LUKÁCS - IRRACIONALISMO E CAPITAL, sob a liderança de Vicente José Barreto Guimarães, e respectivamente, atuando na área da Ciência Política e da Educação. A procura pelo nome Lenin no Censo de 2023, revela um clássico inexistente nos estudos formais no Brasil. É verdade que pode existir uma ampliação dos números se procurarmos por palavras-chave que se referem aos estudos no âmbito da Psicologia histórico-cultural ou a pedagogia histórico crítica. Neste último caso, encontramos 03 grupos em 2014, sendo dois grupos na educação - Leitura e Educação: práticas pedagógicas no contexto da Pedagogia Histórico-Crítica, sob a liderança de Sandra Aparecida Pires Franco na UEL, ou A Pedagogia Histórico-crítica e o Ensino-Aprendizagem da Matemática, sob a direção de Mara Sueli Simão Moraes, na UNESP - e um grupo na educação física - GEIPEE - Grupo de Estudos, Intervenção e Pesquisa em Educação Escolar (Psicologia Histórico-cultural e Pedagogia Histórico-crítica), sob a liderança de Irineu Aliprando Tuim Vioto Filho, na UNESP). É verdade que a busca pelo mesmo termo em 2023 revela um crescimento de 06 grupos, com um total de 8 grupos no âmbito da educação[1]. Mas os números não são, de fato favoráveis e estamos desafiados pelos dados que indicam estagnação.
O marxismo, como tradição que está próxima dos duzentos anos de existência – de imensa contribuição para a análise dos mais variados problemas que emergem nas relações de produção capitalistas – não está se desenvolvendo a contendo na Universidade Brasileira, e é o reflexo deste processo que estamos colhendo no Diretório dos Grupos de Pesquisa do CNPq ou na Plataforma Lattes.
A procura pela qualidade no conhecimento do que as quantidades revelam, pode permitir encontrar,
(i) o aprofundamento da precarização da formação que torna cada vez mais difícil compreender os problemas que o materialismo originário levanta no âmbito dos desafios para conhecimento da realidade;
(ii) o aligeiramento da formação sob a pressão dos prazos e da burocratização;
(iii) a descontinuidade dos estudos dos que concluem os cursos de mestrado e doutorado, pressionados pela luta política em defesa da coisa pública, pelo adoecimento ou pela procura da estabilidade financeira realizando concursos que se fecham para os que reivindicam e se formam no seio dos grupos marxistas;
(iv) o desfinanciamento dos grupos que reivindicam esta matriz teórica;
(i) a ocupação de postos estratégicos no âmbito dos periódicos e das agencias de fomento, de intelectuais com perspectivas conservadoras e compromissos de classe com o grande capital;
(ii) e, não podemos descartar, o medo, ante o crescimento do fascismo, ou
(iii) a própria resistência à institucionalidade formal que também está presente no nosso meio.

No processo de nossa produção como grupo de pesquisa, enfrentamos o desafio (1) de pesquisar em profundidade o materialismo dialético na matriz originária e em algumas de suas vertentes, e (2) analisar problemas educacionais próprios da formação social brasileira.
Neste processo muito rico, transitamos de problemas mais abstratos em moda no marxismo brasileiro (a questão da centralidade do trabalho tomada exclusivamente como conceito, o tema da prática, os problemas da pedagogia que reivindica o marxismo), pela retomada dos fundamentos do materialismo dialético, para o necessário movimento de estudos das condições objetivas nas quais nos formamos e nos tornamos professores:
(I) a política educacional conduzida sob a injunção dos organismos internacionais;
(II) a mercadorização e a financeirização da educação e da cultura corporal;
(III) a crise da escola pública em todos os níveis, que se espelha (i) nas condições de trabalho, (ii) na desvalorização dos trabalhadores da educação, particularmente, os professores; (iii) na explosão das sequelas da questão social na escola e na resposta estatal centrada (a) no esvaziamento do sentido da escola como lugar de humanização (naquele sentido dado por Leontiev de que nos tonamos humanos pela apropriação da cultura); (b) no avanço de políticas que visam conter as sequelas da questão social, levando para a escola os psicólogos, os assistentes sociais e os militares. Para além da formação dos professores, a própria formação dos médicos e dos assistentes sociais nos vem desafiando!
A vastidão da crise da educação pública vem sendo aquela necessidade objetiva que vem sendo assumida subjetivamente pelo Grupo MTE, e nela, os esforços para compreender o avanço do capital sob a educação da classe trabalhadora e as transformações na educação que a convertem sim em mercadoria, desafiando-nos a explicar o processo de extração da mais valia sobre o trabalho dos professores, que se dá no diverso e disperso sistema nacional de educação próprio da formação social brasileira.
Este trabalho gigantesco e de fôlego, não é sempre compreendido pelos atuais membros do Grupo MTE. A liberalização da existência de todos nós, a nossa atomização e individuação imposta pela luta pela produção da nossa existência individual, as agendas diversas impostas em cada local de trabalho no setor público e privado, nos tem desafiado! E este tem sido o maior limite do MTE: para muitos de nós, a relação dura enquanto permanece o vínculo da bolsa, da matrícula na graduação ou na pós-graduação. Nós não estamos conseguindo manter uma agenda de estudos e trabalho com aqueles que encerraram a sua formação na pós-graduação e na iniciação científica, e nós precisamos avaliar esta situação mais cuidadosamente, porque ela também está na base do não crescimento dos grupos de pesquisa marxistas.
Na crise da acumulação capitalista, na intensa concentração e centralização dos capitais, na formação dos oligopólios privados de educação que avançam sob o fundo público, a educação pública míngua, e nos impõe uma luta hercúlea (a) contra a reforma administrativa, (b) por concursos públicos que qualifiquem a educação pública absorvendo os mestres e doutores formados na Universidade brasileira, (c) pela carreira, por salários, por condições de trabalho e por (d) recursos para a permanência dos filhos da classe trabalhadora quando acessam à educação superior tão duramente conquistada.
Nesta árdua conjuntura o MTE precisa continuar sendo um espaço para a formação marxista, para a aprendizagem aprofundada do materialismo dialético, para a investigação dos problemas da educação pública em relações de produção capitalistas. É urgente que os que constroem o MTE se enraízem como marxistas nos seus locais de atuação, constituam núcleos de estudo do materialismo dialético, e contribuam para manter esta matriz teórica fundamental para a investigação das condições em que nos tornamos humanos enquanto latino-americanos resistindo à nova partilha do mundo, com investigação associada à luta política e ao trabalho árduo de arrancar o nosso futuro das mãos do grande capital.
Até aqui, esteve em questão os frutos do trabalho possíveis da última conjuntura. A partir daqui está em questão a necessária projeção do crescimento deste campo teórico, porque necessário para o conhecimento e a nossa instrumentalização para o trabalho de transformação das realidades com o qual nos compromissamos.
Um ótimo X Encontro Marxismo e Políticas de Trabalho e Educação para todos!
[1] “Em 2023, a USP matriculou 97 mil alunos (entre graduação e pós-graduação), contava com 327 cursos de graduação e 229 de pós-graduação, e tinha uma área total de aproximadamente 78 milhões de metros quadrados” – IA do Google.



